10 de março de 2011

90% da ajuda social na Etiópia vem de 1% do povo: os católicos

Entrevista com o bispo de Soddo-Hosanna

ROMA, domingo, 6 de março de 2011 (ZENIT.org) - Os Atos dos Apóstolos narram que um dos primeiros conversos a Cristo foi um etíope. A Etiópia foi um dos primeiros países a declarar o catolicismo como religião oficial, no século IV. Hoje, no entanto, os católicos são menos de 1% da população. Apesar deste número, eles são os responsáveis por 90% dos programas sociais do país.
Nesta entrevista, Dom Rodrigo Mejía Saldarriaga, vigário apostólico de Soddo-Hosanna, explica como a Igreja realiza este trabalho extraordinário.
--O senhor nasceu, cresceu e foi ordenado na Colômbia. Como veio parar na Etiópia?
--Dom Mejía: Cheguei à África em 1963, mas não à Etiópia. Fui para o Congo, o antigo Congo belga, e trabalhei uns vinte anos. De lá fui para o Quênia, trabalhei como missionário durante catorze anos, e agora faz mais de dez que estou na Etiópia.
 

--Qual é a maior dificuldade para se adaptar à África?
--Dom Mejía: O maior desafio foi me adaptar a duas mentalidades ao mesmo tempo: as mentalidades africanas e as mentalidades europeias dos missionários, porque eu era praticamente o único latino-americano e tinha que trabalhar com europeus em prol dos africanos.
--Como descreveria a mentalidade africana?
--Dom Mejía: O africano é aberto, alegre e direto na comunicação; você consegue saber com facilidade o que os africanos pensam. Os europeus são mais reservados, se regem mais pela cabeça do que pelo coração.
--O que há de único na fé etíope?
--Dom Mejía: O cristianismo etíope é muito marcado pela tradição judaica, porque havia presença judia na Etiópia antes do cristianismo. E ainda hoje existem tradições e costumes que são do Antigo Testamento. Por exemplo, eles não comem porco e jejuam duas vezes por semana.
--Qual é o panorama religioso na Etiópia de hoje?
--Dom Mejía: A Etiópia é o país com o cristianismo mais antigo da África. Cerca de 45% são ortodoxos, uns 4% a 5% protestantes, 30% são muçulmanos e o resto são religiões tradicionais africanas. Esta é mais ou menos a composição religiosa do país.
--Os católicos são menos de 1% da população, mas a Igreja Católica se encarrega de mais de 90% dos programas sociais na Etiópia. Por que este quadro?
--Dom Mejía: Eu acho que isso parte da orientação geral da Igreja Católica nas missões: nós não vamos só evangelizar as almas, como no passado, mas as pessoas. A Etiópia é um país muito pobre, com muitas necessidades sociais: necessidades educativas e necessidades sanitárias.
--Estamos falando de que tipo de pobreza? Qual é o salário médio?
--Dom Mejía: Segundo o Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, a Etiópia é o quarto país mais pobre do mundo, com carências em educação, alimentação e emprego. Tem mais de 70 milhões de habitantes, o que faz da Etiópia o segundo país mais populoso da África, depois da Nigéria.
--Mas, do ponto de vista da agricultura, não é um país pobre: tem riqueza, tem minerais. Por que a Etiópia não foi capaz de se desenvolver?
--Dom Mejía: A terra é boa, sim, mas os métodos agrícolas são muito tradicionais. É uma espécie de agricultura de subsistência. A Etiópia é o país mais montanhoso da África, depende em grande medida da água da chuva. Quando dá seca, é um drama para os agricultores.
--Que tipo de programas a Igreja vem desenvolvendo na Etiópia?
--Dom Mejía: A Igreja Católica é reconhecida pelas instituições educativas, desde jardins de infância até o ensino médio. Agora temos um grande projeto para começar uma universidade católica na capital, e talvez em outras cidades, com diversos campi. A Igreja é conhecida pelo compromisso com a educação porque somos convictos de que é o primeiro passo para sair da pobreza.
--Os cristãos são 45% de toda a população, mas existe uma grande população muçulmana. Como os muçulmanos se sentem com esse trabalho e com a forte presença da Igreja, especialmente com esse tipo de programas?
--Dom Mejía: Historicamente, a Etiópia sempre foi considerada um país cristão na África, inclusive desde o começo do islã, e eles aceitam este fato. Durante a perseguição contra os muçulmanos, mesmo na época de Maomé, a Etiópia acolheu os muçulmanos como refugiados, e desde aquele dia os muçulmanos prometeram que respeitariam a Etiópia. É uma tradição, uma tradição oral que dura até hoje.
--Os cristãos e os muçulmanos trabalham juntos pelo bem do país?
--Dom Mejía: Geralmente, sim. Os muçulmanos não são agressivos, são respeitosos. E as nossas instituições sociais são abertas a todos: ortodoxos, muçulmanos, africanos de diversas religiões.
--Nos colégios, por exemplo, qual é a porcentagem de muçulmanos?
--Dom Mejía: Eu não tenho estatísticas exatas. No caso das crianças pequenas, os muçulmanos começaram suas próprias escolas corânicas. Nos nossos colégios de ensino médio, eu diria que talvez uns 10% a 15% são muçulmanos.
--Isto se reflete no panorama político? Os muçulmanos que passaram por uma educação católica estariam mais abertos ao cristianismo, não a se converterem, mas mais abertos a trabalhar com os cristãos?
--Dom Mejía: Esta é uma questão interessante porque, apesar de termos instituições católicas, nós não usamos as instituições para uma educação católica. Pelo menos explicitamente, não ensinamos religião nas escolas católicas.
--Não é permitido?
--Dom Mejía: Não, estamos ensinando religião aos católicos nos nossos colégios fora do horário escolar, e fora do currículo, porque seguimos o programa do país.
--O senhor é bispo de Soddo-Hosanna. Qual é o maior desafio como pastor dessa diocese?
--Dom Mejía: O desafio mais imediato foi a seca. Depois que eu fui nomeado bispo, tivemos cinco meses sem chuva. A terra é boa, mas aqui as pessoas sempre vivem de subsistência, na pobreza. Quando dá uma seca dessas, eles são obrigados a comer as sementes, até que não sobra mais nada para comer. Esta é a verdadeira pobreza e esta seca foi um dos primeiros desafios que eu tive que encarar.
--Como a Igreja trabalha nesta região? Faz distribuição de alimentos?
--Dom Mejía: Nós temos que trabalhar com o governo local e em consenso com eles: com autorização oficial para trazer alimentos e distribuí-los. Depois, contamos com a generosidade das pessoas de fora para trazer comida, ou receber dinheiro para comprar comida localmente. Às vezes, a seca é muito localizada e existe comida nas outras partes do país, então nem sempre temos que importar alimentos.
--Que pediria aos católicos do mundo, como pastor deste diocese, e para a Etiópia?
--Dom Mejía: O pedido mais óbvio é ser sensíveis e conhecer melhor a Etiópia, porque parece que a Etiópia aparece na televisão e no rádio só quando há problemas: quando há fome ou quando há guerras e conflitos, o que tem seus riscos, porque tende a dar uma imagem negativa da Etiópia. No entanto, a Etiópia é um país fantástico. Oferece uma diversidade de culturas. É também um país muito bonito, onde há muitas coisas para contemplar e admirar.
Depois, para os cristãos, a palavra chave é solidariedade. Solidariedade com os etíopes em seus sofrimentos, em sua pobreza, porque sentimos que, após a guerra fria e a queda do muro de Berlim, a Europa está mais orientada para o leste europeu. São novos mercados de investimentos, e sentimos que a África em geral e a Etiópia têm sido esquecidas.
--Quais são, no âmbito pastoral, suas necessidades práticas do dia-a-dia?
--Dom Mejía: Em nosso vicariato, temos 34 creches que pertencem à Igreja católica. Estas creches não podem contar com lucros escolares, pois as famílias das crianças não podem pagar. Além da educação, nós as alimentamos ao meio-dia.
--É a única refeição que recebem?
--Dom Mejía: Praticamente sim. Se não lhes damos esta refeição, os professores veem que as crianças ficam sonolentas e com muita fome. Este é um grande serviço. Os pais enviam as crianças para estas creches nem tanto pela educação, mas mais pelo alimento. No entanto, precisamos do apoio para manter estas instituições e algumas vezes nossos doadores nos dizem: “nós os ajudaremos para começar, mas não ajudaremos nos gastos de funcionamento”. Parece muito lógico que uma instituição teria de ser autossuficiente, mas em nosso contexto é muito difícil, inclusive quando tentamos fazer com que as pessoas sejam mais conscientes da necessidade de sua contribuição local, e elas fazem tudo o que podem, ainda temos desafios.
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Esta entrevista foi realizada por Mark Riedemann para "Onde Deus chora", um programa rádio-televisivo semanal produzido por Catholic Radio and Television Network, (CRTN), em colaboração com a organização católica Ajuda à Igreja que Sofre.
Fonte: http://www.zenit.org/article-27419?l=portuguese

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